A Primeira Noite do Porto

Naquela época não conhecia a insónia. Depois da escala em Lagos, o meu sono foi embalado durante toda a noite pela cadência monótona do ronco dos motores a hélice do Super-Constellation.
Rompia a manhã quando o avião, por fim, sobrevoou o Tejo. O Cristo-Rei refulgia novo e já medonho no seu pedestal sem proporção. O risco imaginário da ponte começara a sair das plantas dos gabinetes, mas não cortava ainda o azul do rio.
– Senhores passageiros, dentro de momentos aterraremos no aeroporto internacional de Lisboa. O céu está limpo, a temperatura local é de treze graus e não há vento. Por favor, conservem-se nos seus lugares com os cintos apertados até à completa imobilização do avião na pista… crew, prepare for landing.
Às sete horas de uma manhã fria de Maio de 1963, aterrei na capital do Império.
Evidentemente, agarrado ora à chupeta, ora ao biberon, a descrição da minha entrada triunfal na Europa é uma reconstituição, ficcionada a partir de memórias maternas muito mais tardias. Lisboa não me marcou nesse dia. O nosso destino era Barrô, no concelho de Águeda, distrito de Aveiro.
Águeda fica a cerca de 90 km do Porto e a 220 ou 230 de Lisboa. No Portugal centralista de Oliveira Salazar, isto significava estar muito mais perto da capital. E, com efeito, são de Lisboa as minhas primeiras grandes memórias de infância: uma porta de vidro na Portela que se abria sozinha quando nos aproximávamos; uma escada de degraus metálicos com estrias, na FIL, que subia mecanicamente e nos elevava sem precisarmos de dar às pernas; uma máquina gigante, ainda na FIL, onde os jornais entravam direitos e tesos, de um lado, e saíam dobrados e cintados do outro; as casas todas juntas e muito altas, numa rua muito comprida que era a Avenida Almirante Reis, onde entrava quem vinha do Norte e que, no meu imaginário, ficaria para sempre como a marca distintiva da cidade grande; uma laranjada num copo de papel que não se molhava nem desfazia e o Victor não acreditou, quando lhe contei; a estátua de D. José, no Terreiro do Paço, igualzinha à figura que vinha no livro de leitura da terceira classe do meu primo João…
Coimbra e Aveiro não contam. Existiram sempre.
Coimbra ficava na estrada, a caminho de Lisboa. Cheirava a bolachas e tinha uns potes gigantes com uns tubos muito altos dentro de uma casa com paredes de vidro. Era a fábrica da cerveja – explicava o meu pai. Para mim, era a primeira porta de entrada no reino do maravilhoso.
Coimbra era também a universidade onde estudavam os filhos do Fausto e os rapazes ricos de Barrô. E o Amílcar que andava em Letras e eu não percebia o que isso queria dizer, imaginando que quando fosse grande não queria ser um “T” nem um “X”. Era a estátua de D. Dinis, na rotunda ao pé portão de onde saíra limusine preta com a urna do filho da Natalinha que andava no quinto ano de medicina e morrera de amor. E Barrô inteiro fora em cortejo esperá-lo à saída do Instituto de Medicina Legal. E os carros contornaram a estátua do D. Dinis e o D. Dinis tinha uma coroa, como eu sabia que tinham os reis…
Aveiro era menos. Não era quase nada. Eram uns prédios azuis muito lindos, ao pé da “Clínica de Santa Joana”, onde fora operado o Senhor Agnelo. Eram os montes brancos de sal, a ponte de medo e de madeira para a Costa Nova e a máquina de costurar barcos, no porto, depois da ria. Era o ponto onde, no regresso da praia, à noite, o facho do farol da Barra desaparecia e eu me sentava finalmente direito no banco do carro, deixando de lhe dizer adeus.
Menos do que tudo era o Porto. Não passava de um nome que – vá-se lá saber porquê – na minha imaginação andava sempre associado a Guimarães e a Paris, formando uma trilogia de onde saía aleatoriamente a cidade que eu dava como resposta à pergunta «qual foi a primeira capital de Portugal?»
Até aos sete anos, o Porto foi a imagem única de um palacete abrasileirado na Rua do Heroísmo, onde funcionava uma qualquer delegação sanitária a que me desloquei com os meus pais para uma vacina imprescindível a um projecto frustrado de regresso a África. Recordo com precisão georreferencial esse imóvel. Creio até que ainda hoje o identifico. Mas nada mais, rigorosamente, nada mais. Talvez tenha adormecido no resto do caminho.
A primeira memória a sério da Invicta é dois ou três anos posterior e insere-se já no plano de mudança da família para Vila Nova de Gaia.
Começa com o tio Eugénio a atravessar a nova ponte da Arrábida, a perguntar-me o nome do rio e a cantar: «ó meu rio Douro, Dourinho, Dourado…» Segue pela Areosa, numa transversal à Afonso Henriques, onde esperei dentro do carro (um Austin que não era do meu pai) a resolução de um qualquer assunto de adultos.
O fascínio começou à hora de almoço em casa do tio Jaime, no sétimo direito do 793, da Rua Fernandes Tomás que subi e desci uma dúzia de vezes, a pé e de elevador, a saborear o prazer infantil da cidade a ficar pequena com a altura.
A varanda do quarto dos tios dava para as traseiras, para as gigantescas oficinas do jornal “O Primeiro de Janeiro”. E eu soube logo que “O Primeiro de Janeiro” era o melhor jornal do mundo. E era. E continua a ser, ainda que agora seja só arquivo e memória.
E a tia deu-me leite em pó “Molico” e, no fim, mandou-me limpar os bigodes.
E eu subi e desci a outra vez os sete lanços de escadas, e fechei e abri muitas vezes a grade do ascensor, e carreguei no botãozinho ao lado do número 7, e desobedeci à ordem «não andes sozinho no elevador que podes lá ficar fechado».
O regresso, à noite, envolveu uma volta pela baixa, a volta do encanto final. Foi a descoberta mágica do néon e do poder hipnótico do néon e da luz.
Eu conhecia o anúncio da “Oliva”, à saída da ponte de Águeda. Havia de conhecer, muitos anos depois, a Plaza Venezuela, de Caracas, e a Times Square, de Nova Iorque. O anúncio de Águeda era apenas bonito e a Plaza Venezuela e a Times Square não eram luz. Eram o excesso barroco da luz. Além disso, quando a conheci, a Times Square já não era néon, nostálgico e romântico. Era electrónica digital.
O Porto dessa infância perdida era diferente. Era a justa medida da luz e da cor.
A Praça D. João I refulgia. A abrir, ainda em Sá da Bandeira, na esquina com Passos Manuel, o anúncio da “Confidente – Compra, Vende, Hipoteca” que eu tantas vezes vira em azulejos pelas estradas fora, alternando com o “Adubai com Nitratos do Chile”. Era ali a “Confidente”. Era a cores e eu estava a vê-la.
Do outro lado, no telhado do Rivoli, um pneu gigante a encimar o quadrado vermelho com as letras garrafais “Mabor General”. Por causa desse anúncio, nas guerras clubísticas que mantinha com a minha irmã sobre tudo e sobre nada, eu seria da “Mabor” e ela da “Firestone”.
Mais à frente, na Praça da Liberdade, vi com os olhos pequenos muito arregalados os anúncios do “Porto Borges” e o da “TAP”, muito alto, com o logotipo clássico das asas estilizadas de um pássaro, igualzinho ao dos sacos oferecidos no Super-Constellation que ainda andavam lá por casa.
Ou talvez nada disto tenha acontecido e tudo sejam reconstruções posteriores, falsas, do meu passado.
Mas vi claramente vistas – e essas são seguras, porque ainda hoje me povoam os sonhos felizes – as chamas pequeninas e losangulares, a subirem contínuas e azuis na fachada do prédio mais alto da Praça da Batalha, do chão até ao céu, alternando com o nome familiar “Gazcidla” que eu via nas garrafas de gás de Barrô.
Ao atravessar a ponte D. Luiz, vendo os pingos caídos da lata das tintas “CIN” a choverem multicolores sobre a Ribeira de Gaia, eu soube que queria que Barrô fosse igual ao Porto. Ou que outro destino se cumprisse e o Porto fosse, afinal, a minha pátria.
Aos sete anos, eu nunca tinha ouvido falar de Teófilo Rego. E não sonhava que, quando tivessem passado cinco décadas sobre esse dia do encanto inicial, por causa de Teófilo Rego e do seu trabalho ao serviço da “Neolux”, eu escreveria estas linhas nostálgicas.

portoantigo

Veja também: Teófilo Rego na Biblioteca Digital Portuense.

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