A cidade e as gentes

«Meus senhores, anuncio-vos o fim da Idade Média!»
Derrubados os muros de Constantinopla, conquistada a cidade, Mahomet II, el-Fātiḥ, deixa escapar a oportunidade deste anúncio grandioso de fim dos tempos.
Por entre a confusão da fuga, do saque e da lenda, deixará também escapar as relíquias de São Pantaleão de Nicomédia que – juram as crónicas – um piedoso grupo de cristãos arménios carregará por um mar de mil turbações até à barra do Douro e à Igreja de São Pedro de Miragaia, de onde o santo anárgiro se fará padroeiro da Invicta, cargo de que só em 1964 será compulsivamente aposentado.
É em demanda desses cristãos carregadores de sacras ossadas do oriente, acolhidos à sombra das pedras de Miragaia, na rua que tomou o seu nome, que partimos pelo calor da tarde que começa.
A aventura não peca por ambiciosa. Quinze minutos depois, do Largo Artur Arcos, pela viela da Baleia, até aos escritórios da «Douro Azul», está concluída. Dos arménios, só o nome da rua e mais nada, que depois do século XV, arménios a mexerem-nos com as cordas da gratidão, só o Senhor 5%, com direito a estátua e perdigão na Praça de Espanha, em Lisboa.
É muito cedo. Herdeiros dignos dos antepassados da gesta dos descobrimentos, decidimos atacar a escadaria do Monte dos Judeus e a Ilha do Ferro, até às Virtudes. Contornando ruínas, pedras e grafitis de Hazul, regressamos a Miragaia. Nova escalada. Tomaz Gonzaga, São João Novo, secção da Muralha Fernandina, rio, Muro dos Bacalhoeiros, Ribeira.
Paragem para café, água e dois fôlegos. Barredo.img_6979«O Barredo é bonito, com suas ruas tortuosas, seus cachorros de granito e varandas de ferro batido, seus largos, seus nichos e “alminhas” o Barredo é bonito. Se dentro das casas houvesse pão, a escarpa do Barredo poderia ser mostrada. Assim, tem de ser escondida…» – garante com bom coração e má literatura o Padre Américo, citado na placa de bronze que justifica o nome dos três socalcos assimétricos a que a Toponímia chama largo.
O sol começa a declinar no horizonte, quando iniciamos a escarpa. Aos seis ou sete degraus, sentadas no chão, ocupando metade da passagem disponível, cinco ou seis mulheres das casitas vizinhas absorvem a vitamina D transportada nos raios luminosos e ensaiam a trilionésima versão da última cantiga de escárnio e mal-dizer cantada no bairro. A mais velha não passará dos trinta. Ao ver-nos, abre mais as pernas amplas que lhe saem dos calções curtos, exibindo, poderosas, duas coxas vastas e grossas onde se anuncia crescente a celulite. Não é uma provocação. É uma afirmação de liberdade e independência. É o protesto de que o Barredo nunca vergará os seus costumes aos pudores correctos de forasteiros metediços.
É quando estou quase a cruzar-me com esta tertúlia de vão de escada que o sinto atrás de mim, pequenito, a dar-me leves murros nas pernas. Volto-me e vejo-o. Não terá mais de três ou quatro anitos. Um leve calção de banho é tudo o que veste e parece bastar-lhe. Desafiador, ultrapassa-me e coloca-se à minha frente a barrar-me o caminho. Exibe na mão uma máquina de calcular que agita freneticamente diante dos meus olhos.
– Sabes fazer contas? Sabes fazer contas?
Sorri e dá pequenos pulos, tentando deter-me a caminhada.
– Sabes fazer contas? Sabes fazer contas?
Aprendi com os bons e velhos Jesuítas da Faculdade: responder sempre a uma pergunta com outra pergunta. Devolvo-lhe, pois:
– Eu sei. E tu? Sabes fazer contas? Quantos são três mais três?
A técnica desarma-o. Em silêncio, abre-me o caminho até aí fechado e deixa-me seguir, como se, contrariado, me tivesse visto proferir uma senha secreta que o obrigava a franquear-me a passagem.
– São seis, filho – responde pelo catraio a das coxas grossas. Diz ao senhor que são seis.
Ele não diz nada. Continua fascinado com a minha presença e segue-me o vulto. Sorrio-lhe e retomo a subida. Galguei já mais três ou quatro degraus, quando, atrás de mim, ele desce de novo à terra.
– O gajo faz contas, o gajo faz contas, o gajo faz contas… Ó mãe, o gajo faz contas.
– Não se diz gajo, diz-se senhor – corrige-o a mãe, ciente que a ouço ainda e desejosa de me mostrar que conhece os costumes linguísticos dos bécamos da cidade nova.
– Mas pode-se dizer gajo – insiste o miúdo. O gajo faz contas, o gajo faz contas, o gajo faz contas…
– Não pode – contraria a mãe. Tens de dizer senhor.
– E merda? Se eu não disser gajo, posso dizer merda?
O Porto é uma cidade coerente. A escadaria do Barredo desagua na Senhora das Verdades.

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Veja também: São Pantaleão, Padroeiro do Porto, Centro Histórico do Porto, Porto: Património Mundial da Humanidade e Igreja de São Pedro de Miragaia, na Biblioteca Digital Portuense.

(Inicialmente publicado em Julho de 2015)
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