Rocha Brito: um percurso portuense

A obra parece maior do que o obreiro. O homem terá, acaso, impressionado os que o conheceram. Os jornais registaram, múltipla, a sua memória; uma memória vasta e talvez digitalizada, mas não indexada. A pesquisa “Arnaldo Moreira da Rocha Brito”, no Google, devolve um resultado escasso:

Pouco mais.
Guardiões da memória, acrescentamos uma vírgula ao resgate do esquecimento:

Excerto da «Acta da Reunião ordinária da Excelentíssima Câmara Municipal do Porto, realizada em dezoito de Fevereiro do ano de mil novecentos e sessenta e quatro.»

«O Vereador Senhor Abrantes Jorge, pedindo a palavra, diz:
Ex.mo Senhor Presidente
Exmos Senhores Vereadores
É esta a segunda sessão da Excelentíssima Câmara, a que tenho a honra de assistir; é esta, também, a segunda vez que eu uso da palavra, o que muito me apraz, porque o faço em obediência às imutáveis determinantes da justiça.
Completou no passado dia 2 de Fevereiro oitenta e quatro anos de idade e mais de setenta e três anos de vida de trabalho incansável uma popularíssima figura do Porto, que pode ser apontada como um dos mais nobres exemplos de amor a este velho e invicto burgo.
É Arnaldo Moreira Rocha Brito ou simplesmente Rocha Brito que toda a cidade estima e admira.
Nascido em mil oitocentos e oitenta, nesta cidade, no seio de uma numerosa família burguesa, de origem duriense, não se expatriou para o Brasil, na adolescência, como o fizeram os restantes seus irmãos.
Aqui no Porto, iniciou ainda muito criança a sua dura vida de trabalho, como então a iniciavam, os que nada tinham a não ser a indomável vontade de triunfar: como marçano.
De marçano subiu a caixeiro e de caixeiro a comerciante de uma pequena loja de panos brancos.
Depois abalançou-se e fundou a que ainda hoje é uma das mais elegantes alfaiatarias desta cidade: «Londres no Porto» que durante muito tempo ostentou de direito e com orgulho a divisa de «Fornecedor da Casa Real».
Seguidamente passou a ser, como toda a gente sabe, o maior negociante de automóveis do Norte de Portugal.
Mas onde a actividade de Rocha Brito mais se notabilizou e com a qual prestou os mais assinalados serviços à cidade do Porto, foi como empresário teatral.
Pelo Teatro Águia D’Ouro, celebrizado por Júlio Dinis, no seu belo romance da vida portuense «Uma Família Inglesa», Rocha Brito fez passar, em espectáculos maravilhosos, as mais afamadas companhias de ópera, opereta e zarzuela.
Depois, no Teatro Sá da Bandeira, de que é arrendatário desde mil novecentos e nove, Rocha Brito ofereceu à cidade do Porto tudo o que de melhor tem havido na cena portuguesa e na estrangeira, através das idades.
Aqui trouxe o grande Zaconi , a prodigiosa Mimi Aguglia, as irmãs Gramáticas, a Commédie Française e todos os anos tinha temporada certa a companhia de Brasão e dos Irmãos Rosas.
Companhias famosas estrangeiras como as do Teatro Bataclan e Caramba aqui vieram pela mão de Rocha Brito.
Construído o Coliseu do Porto, logo Rocha Brito foi seu empresário, e dizer das noites gloriosas de ópera com as maiores figuras da cena lírica mundial, dos concertos sinfónicos com as mais afamadas orquestras do mundo, entre as quais é justo destacar a Orquestra Filarmónica de Berlim e de outros espectáculos de grande nível artístico e cultural, é fazer história, que por ser recente, está na memória de todos, ainda dos muito novos.
Os espectáculos líricos que em todas as nações civilizadas do mundo, custam somas avultadas aos respectivos governos, ofereceu-os Rocha Brito, durante oito anos consecutivos, à cidade do Porto, sem jamais haver recebido o mais pequeno subsídio.
Para tudo resumir, bastará dizer que, havendo deixado de ser empresário do Coliseu do Porto, acabaram, para não mais terem voltado, as maravilhosas noites de espectáculos líricos na cidade do Porto.
Já com oitenta anos, Rocha Brito, num prodígio de vontade indomável e como prova de amor a esta cidade que o viu nascer, gastou milhares de contos, na remodelação total do Sá da Bandeira, fazendo do velho casarão, que era, o belo teatro que hoje todos admiram.
Para obras de caridade teve Rocha Brito abertas sempre as portas dos seus teatros, sem receber sequer as despesas da «seral».
Que o digam os grupos beneficentes e a comissão das senhoras desta cidade que se têm dedicado a socorrer os necessitados.
Tudo isto fez com que o Governo da Nação concedesse, muito justamente, a Rocha Brito a comenda da benemerência.
Ainda recentemente Rocha Brito abriu as suas portas do Teatro Sá da Bandeira aos concertos para a juventude, em boa hora levados a efeito pela magnífica Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto, sob a direcção do insigne maestro Silva Pereira.
Este mecenato de Rocha Brito recebeu justa exaltação no próprio seio da Assembleia Nacional.
Este exemplo de trabalho, de desinteresse, de dedicação á cidade do Porto, parece ser digno de reconhecimento por parte do burgo que ele tanto tem amado e servido.
Por isso julgo que o Porto deve manifestar de forma inequívoca esse reconhecimento por intermédio da sua legítima representante que é esta Câmara Municipal.
Assim, proponho que ao cidadão portuense Arnaldo Moreira da Rocha Brito, seja concedido o galardão que a Comissão de Recompensas julgar por bem conferir-lhe.
O Senhor Vice-Presidente, usando de novo da palavra, diz:
Senhor Vereador
Ouvi a proposta apresentada por Vossa Excelência e tal como Vossa Excelência refere, ela será enviada à Comissão de Recompensas para apreciação.»

Doente, Nuno Maria de Figueiredo Cabral Pinheiro Torres, Presidente da Câmara Municipal do Porto, não assistiu à sessão. À secura com que o Senhor Vice-Presidente recebeu a proposta não terá, porventura, sido alheio o público desamor que Rocha Brito nutria pelo Presidente do Conselho, Doutor António de Oliveira Salazar.
O site do Município regista a entrega, em 27 de Fevereiro de 1964, da Medalha de Mérito, grau ouro, a Arnaldo Moreira da Rocha Brito, empresário, antigo Presidente da Associação Comercial do Porto.

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