Santa Cruz 87 (n.º Geral 619)

Ignorando (fingindo ignorar) que a omnisciência é prerrogativa divina e que o conhecimento universal é soberba que perde o filho do homem, no livro II do seu De doctrina Christiana*, recomendou Santo Agostinho o estudo abrangente e enciclopédico de todas a matérias aptas à iluminação das Sagradas Escrituras, da História à Geografia, da Medicina à Astronomia, passando pela Zoologia e pela Aritmética.
Flavius Cassiodorus encetou, no século VI, esse programa de saber absoluto e pecado que tem na Wikipédia uma das suas últimas manifestações. Nele sacrificaram também Isidoro de Sevilha, Honorius Augustodunensis e Thomas Cantipratensis, porventura, os nomes maiores do enciclopedismo medieval.T1-8
Cansado do latim, empreendeu Gossouin de Metz, em 1245, a laboriosa redacção de uma enciclopédia em língua vernácula. Ao texto original, em verso, seguiu-se, logo depois, a mesma composição em prosa. Nas suas duas versões, L’image du monde tornar-se-ia a primeira grande colectânea do conhecimento universal ao alcance da plebe. Em Inglaterra, muitos anos depois, seria o primeiro livro ilustrado a ser impresso.
Amigo de Platão, mas mais amigo da verdade, Aristóteles ensinara que um corpo pesado cai a maior velocidade do que um corpo leve. Metz não tinha uma torre inclinada como Pisa e Galileu ainda não estudara a queda dos graves nem experimentara a indiferença dos sábios pisanos perante os factos observados. Gossouin repete Aristóteles, os sábios pisanos e o senso comum que engana. Mais ousado ainda, repete Ctesias de Cnidus (recordado por Plínio, o velho), e situa nas proximidades do Paraíso a terra dos monópodes (ou monocoli, nome que Gossouin ignora, chamando-lhes, apenas, «ciclopes»), seres de um só e gigantesco pé que, no Verão, erguiam, deitados, sobre a cabeça, para se proteger do sol e do calor. No virar do milénio, Umberto Eco encontrá-los-á, de novo, em Baudolino.sciapode Aos monges crúzios de Coimbra chegou alguma vez o manuscrito de L’image du monde, de Gossouin de Metz. Em 1834, Alexandre Herculano juntou-o aos outros 169 manuscritos da «Livraria de Mão de Santa Cruz de Coimbra» e levou-o para o Porto. Constitui hoje um dos tesouros da Biblioteca Pública Municipal da Invicta. 619 é o seu número geral no catálogo.
«El universo (que otros llaman la Biblioteca) se compone de un número indefinido, y tal vez infinito, de galerías hexagonales» – escreveu Jorge Luís Borges. Até hoje, o universo não contava com esta nota caótica e dispersa.
Ou talvez contasse muitas vezes… foi também Borges quem nos ensinou que a Biblioteca – o outro nome da enciclopédia  de Agostinho –  não é senão um jogo infinito de espelhos.

Existem, disponíveis online, traducões inglesas: On christian doctrine ou On christian doctrine, in four books, por exemplo

Veja também: BPMP – Biblioteca Pública Municipal do Porto na Biblioteca Digital Portuense

(inicialmente publicado em 2014-02-27)
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