O arquitecto da obra por haver

Un libro es una cosa entre las cosas, un volumen perdido entre los volúmenes que pueblan el indiferente universo, hasta que da com su lector, com el hombre destinado a sus símbolos. Ocurre entonces la emoción singular llamada beleza, ese misterio hermoso que no descifran ni la psicología ni la retórica.
Jorge Luis Borges

O que é uma obra de arte?
Existe a obra de arte, em si mesma? Ou – como sugere Borges – a obra de arte não é a obra de arte, mas própria relação da obra, em si, com o destinatário que a consome ou desfruta, em termos de, não havendo destinatário, não haver também obra de arte?
A questão tem várias dimensões. Uma delas, assinalada ainda por Borges, tem a ver com o que à obra original é acrescentado pelos destinatários.
Não vemos hoje os painéis de Nuno Gonçalves como os viam os contemporâneos de Nuno Gonçalves, nem lemos o Quixote como o liam os seus primeiros leitores.
Hoje, dizemos que os painéis são de Nuno Gonçalves ou de São Vicente (ou das Janelas Verdes) e o nosso olhar é condicionado por esses dizeres que não eram os dizeres do pintor nem os dos que viram o quadro original. Hoje, vemos Salazar nos painéis (e também Teixeira dos Santos e António Barreto), e a dinastia de Avis, e os descobrimentos, e a História de Portugal… E a questão dos painéis… E os painéis já não podem ser vistos sem estes novos elementos que incindivelmente fazem agora parte deles e os acrescentam. Tanto, que os painéis não são mais os painéis que eram antes (eram apenas uma tábuas velhas e esquecidas em São Vicente de Fora) e não poderão jamais voltar a ser o que eram antes.
Do mesmo modo, o número de vezes que as pessoas que nunca leram o Quixote usaram o adjectivo «quixotesco» ou falaram em «combater moinhos de vento» determina que o Quixote não seja (não possa ser) mais o livro sem estrutura nem rumo que Cervantes escreveu, mas o clássico em que se tornou e que como clássico não pode deixar de ser lido.
Outra dimensão é a que pergunta pela obra de arte sem destinatário.
Seria O Processo, de Kafka, a obra de arte genial que é, se Max Brod, cumprindo os desígnios do autor, tivesse queimado o respectivo manuscrito?
Destruído o grosso dos seus quadros, será Santa-Rita Pintor um pintor tão grande como a obra desaparecida?
É aqui que nos cruzamos com o drama do arquitecto: qual o valor artístico de um projecto para sempre em desenho e nunca concretizado?
Talvez ninguém tenha vivido tão intensamente esse drama como José Porto, o arquitecto da obra por haver.
Natural de Vilar de Mouros, estudante em Lisboa e em Genève, é no Porto homónimo que, em 1933, fixa residência e é aqui que não realiza o grosso da sua obra.
Vencedor do concurso público para a construção do estádio municipal da Invicta, o projecto nunca chega a ser construído.
Igual destino tem a remodelação do Teatro Gil Vicente e a piscina municipal, desenhadas por José Porto para o demolido Palácio de Cristal e seus jardins.
A remodelação do Teatro Águia d’Ouro não vê a luz do dia.
O Coliseu do Porto – para o qual sonhou uma das primeiras propostas – acaba por transformar-se depois no sonho de outros: José de Brito, Charles Siclis, Mário Abreu… Cassiano Branco obscurecerá para sempre o nome de José Porto na associação da memória à casa de espectáculos da Rua Passos Manuel.
A remodelação do Mercado Geral do Porto, no Jardim da Cordoaria, dá lugar ao actual Palácio da Justiça que não grava na eternidade da pedra o nome de José Porto.
O cinema previsto para o cimo da Rua Sá da Bandeira, aborta e, em seu lugar, nasce uma menos ambiciosa autogaragem. Estacionamento. Muda-se o óleo e trocam-se pneus. Assistência a baterias.
Um dos mais arrojados projectos de José Porto, o Hotel Dom João I, na nascente Praça do mesmo nome, não revela viabilidade económica e não chega ser inaugurado.
A cidade da Beira, em Moçambique, redimi-lo-á.
A par de meia dúzia de edifícios esquecidos, remodelados e demolidos, o velho burgo de onde houve nome Portugal guardará de José Porto uma casa na Rua de Nevala , n.º 43 (1934); outra na Avenida de Montevideu, n.º 644 (a casa José Prata, de 1937) e o Edifício Emporium, lugar chique de bifes, pastéis e tertúlias.
Nada de especialmente, monumental, todavia.
A imortalidade só virá bater-lhe à porta na Rua da Vilarinha, números 431-475, pela mão de Manoel de Oliveira e da página 4456, do Diário da República, 2.ª série, numero 35, de 19 de Fevereiro de 2015. Talvez aí, nesse jardim novo da Vilarinha, num qualquer dia irremediavelmente perdido do início dos anos 40 do século XX, Oliveira tenha sonhado e pedido a José Porto o desenho da «Loja das Tentações», de Aniki Bóbó. Talvez aí este tenha, pela primeira vez, concebido mentalmente aquele cenário de cartão, perguntando-se angustiado: o que é mais real? O cenário irreal de um filme de ficção ou o desenho real de uma obra que nunca será construída?

empor

Veja também: José Porto na Biblioteca Digital Portuense

(inicialmente publicado em 2015-07-05)
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