A Arte em Hazul

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Há quarenta e cinco anos, no Porto, quando frequentava o ensino básico, o sonho de qualquer pai modesto, sem possibilidades de mandar o filho estudar, era ainda que este aprendesse uma «arte» e se tornasse marceneiro, picheleiro, canteiro… Em suma, que não fosse um mero trabalhador indiferenciado, mas dominasse um certo saber que, não sendo teórico, se consubstanciava num saber fazer.031-2
O sonho mergulhava as suas raízes, na Idade Média.
Recorda Umberto Eco* que «para o medieval, a arte era simplesmente uma técnica, a capacidade de fazer bem os objectos segundo as regras: a construção de barcos era uma arte como a pintura e a escultura, e um produto de arte só podia ser considerado belo se correspondesse à função para que se destinava (…). Existia uma distinção entre artes liberais – entre as quais, além da lógica e da retórica, figurava a poesia – e artes servis, em que se utilizava as mãos, e onde se incluíam a pintura e a escultura. Por isso, não conhecemos o nome de muitos escultores do período românico, de muitos mestres que conceberam e construíram as grandes catedrais e de muitos miniaturistas; e só na Idade Média madura os nomes de alguns artistas se tornam míticos e exemplares, como no caso de Giotto.»
O grafitti começa também hoje a entrar na sua Idade Média madura. Se tradicionalmente o grafiteiro era um ser ignoto e anónimo (fora do gang em que se inseria), portador de uma mensagem de revolta que em si mesma se esgotava (bela apenas na medida em que correspondia «à função [de negação dos valores burgueses] para que se destinava»), e cujo nome para nada interessava (a não ser, porventura, ao próprio, como meio de subir na hierarquia grupal, e ao polícia que o devia prender), o seu estatuto começa agora a ser o do verdadeiro artista que, dominando com mão segura um saber fazer, exige o reconhecimento público e, por isso, assina as sua obras (de modo claro e reconhecível, mesmo fora do grupo a que pertence) e a quem não escapa sequer o sentido do marketing e a necessidade de promoção sistemática e exaustiva do respectivo portefólio.094
A avaliação de um artista ainda em desenvolvimento é prematura. À primeira vista, contudo, parece poder afirmar-se que o Porto – terminada a fase da parede medieva e iniciado o momento moderno – encontrou em Hazul o seu Giotto do grafitti.
Resta saber se a mudança do paradigma não implicará também a mudança do registo. E se, quando falamos do grafitti de Hazul, é ainda de grafitti que falamos…
Para já, do grafitti, a arte de Hazul conserva, pelo menos, a natureza efémera. É por isso que é importante registá-la. Para memória futura…

* – Umberto Eco (dir.) – Idade Média: vol.I: bárbaros, cristãos e muçulmanos. Alfragide, Dom Quixote, 2011, pp. 37-38.

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Veja também: Hazul Luzah na Biblioteca Digital Portuense

(inicialmente publicado em 2014-02-11)
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