Isto não é uma ponte

ponteluiz

O que é uma ponte?
À mente vêm-me as palavras dos engenheiros civis com quem trabalhei: «se trespassar um curso de água, é uma ponte; caso contrário, é um viaduto».
A resposta, contudo, não resolve o meu problema. Os engenheiros já sabem o que é uma ponte. Ao limitarem-na aos cursos de água, não pretendem defini-la. Estão apenas a distingui-la de um viaduto.
A minha questão é anterior: se eu não sei ainda nada sobre pontes, o que é uma ponte?
E é aqui que os meus passos vão outra vez, circular e obsessivamente, dar à filosofia medieval, à questão dos universais e a Roscelino: uma ponte não é nada, é um som, um flatus vocis sem outra realidade que não a de ser um nome. A ponte, o universal «ponte», não existe realmente. Só existem as pontes individuais, concretas e únicas[1], de pedra, de betão ou de ferro. «Ponte» é apenas uma «emissão fonética»[2], sem realidade real fora do pensamento, usada para designar as pontes individuais, as únicas realmente existentes e subsistentes.
Mas então – objectam-me os realistas – por que razão chamamos «ponte» à ponte da Arrábida, à de Dom Luís ou à do Infante? Se nada as une senão o nome «ponte», se o que existe é apenas cada uma na sua irredutível individualidade, por que usamos para as designar um e o mesmo nome «ponte»? E por que não usamos esse mesmo sopro vocal «ponte», para designar também, por exemplo, a estação de Campanhã ou a Torre dos Clérigos?
Se não na transcendental realidade das ideias sonhada por Platão – continuam os realistas –, alguma essência comum, realmente existente e subsistente no mundo real (e não apenas na mente do sujeito cognoscente), deverão partilhar as pontes todas, para a todas eu chamar «ponte», e não já, igualmente, às estações de caminho de ferro ou às torres das igrejas.
É que, ao contrário das estações e das torres – concluem os realistas –, as pontes destinam-se a ser atravessadas. As pontes «são passagem para a outra margem».
Concedo. Vencido, mas não convencido. Continuo a preferir Roscelino, o vocalista.
Seja como for, aceite o contra-argumento realista, uma ponte que já não é passagem, uma ponte que já não une margens e já não serve para atravessar, já não é uma ponte.
É por isso que ponte Dona Maria já não é uma ponte. Já não se atravessa.
O que é então?
É uma obra de arte. E uma obra de arte num sentido mais amplo do que aquele que a expressão tem nos cadernos de encargos dos concursos de empreitada de obras públicas, no sentido de «objecto estético», como pertinentemente salientava Paulo Cunha e Silva[3].
Ora, é precisamente neste ponto que ganha pertinência a questão implícita na proposta de Pedro Bandeira e Pedro Nuno Ramalho de transferir a ponte de Dona Maria, do Douro, para o centro da cidade do Porto: qual é o lugar certo para colocar uma obra de arte como a secular ponte de Dona Maria, monumento nacional e património da humanidade?
Podemos, claro, deixá-la onde está, a ligar o Porto e Gaia, fingindo, no jogo lúdico do oxímoro, que a ponte de Dona Maria é uma ponte.
O risco é o de ser tão pessoanamente psicográfico o fingimento, que a Dona Maria chegue a ser a ponte que deveras é e, nesse percurso, se perder a obra de arte e ficar, aos olhos do público, só a ponte. Afinal, são só pontes todas as obras de arte que atravessam rios.
Mais luminoso e provocante é o desafio de assumir parmenideanamente que o que é é, e o que não é não é, e exibir no centro da cidade (no bairro demarcado pelas ruas de Cedofeita, Bragas, Mártires da Liberdade e Álvares Cabral) a ponte como ela é: uma não-ponte que não liga margem alguma e que se consubstancia, apenas, na obra de arte pública que sempre foi.
Por mim, talvez acrescentasse na base, ao lado da placa a atribuir a autoria do projecto a Gustav Eiffel, uma legenda magrittiana: «isto não é uma ponte».

[1] «Só a individualidade é real, ou seja, não há outro meio possível de considerar o indivíduo fora de sua indivisível individualidade.» – escreve Manoel Vasconcellos, explanando o pensamento de Roscelino.
[2] Manoel Vasconcellos, cit.
[3] Cf. Sérgio C. Andrade – A ponte é uma miragem…, «O Tripeiro», 7:º série, ano XXXIII, n. 1 (Janeiro 2014), pp 22-23.

Veja também: Ponte Dona Maria na Biblioteca Digital Portuense

(inicialmente publicado em 2014-02-07)

 

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