A Lição

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A via de cintura interna nasceria três ou quatro anos depois. O cruzamento do Campo Alegre seria também desnivelado mais tarde (ou tinha-o sido há pouco). A ponte do Freixo era um mero risco a tinta da china numa planta. Com a ponte do Infante, ainda ninguém sonhava.
A Avenida de Gaia, repleta de motos, automóveis, camionetas, fumo e stress, transformara-se no último círculo do inferno obrigatório em que se haviam tornado as minhas manhãs de acesso ao Porto.
O exame era às nove, na Rua de Entreparedes, junto à Praça da Batalha. Saíra de casa às sete e meia.
Às nove menos dez, perdida a paciência e a pontualidade, abandonada a viatura, atravessava a pé o tabuleiro superior da ponte de Luiz I.
A cidade velha mergulhava no nevoeiro, velada por aquele manto de mistério, ânsia de mar e vaga melancolia que constitui a alma eterna do Porto.
A beleza baça e oculta do rio aumentou a minha irritação. Uma manhã perfeita de Junho, e eu ia perdê-la a olhar para umas bestas ignorantes que despejavam disparates numa folha de papel, tentando adivinhar a inócua diferença entre simulação absoluta e simulação relativa, nulidade do negócio simulado e validade do negócio dissimulado. Como se um Código Civil pudesse valer um amanhecer de nevoeiro!
Ainda para mais, estava atrasado.
Praguejei furioso. Maldisse a pátria e Cavaco Silva. Desejei raios fulminantes que partissem toda a humanidade e me deixassem só com o rio e a luz matinal do rio.
Corri.
Ofegante e suado, cheguei à Junta de Freguesia da Sé.
Um bando de 40 ou 50 miúdos cortava o passeio aos gritos, à espera da camioneta que os havia de levar à praia. Riam, abraçavam-se, lutavam, brincavam, corriam felizes por todo o lado, indiferentes às ordens das educadoras.
Impediam-me a passagem.
Desesperado, quis ser Herodes e degolá-los. Quis pontapeá-los, fazer-lhes a cara num bolo, rebentá-los à chapada. Enxotá-los a chicote. Não me bastavam as filas de carros a atrasarem-me a vida na Avenida de Gaia; não me bastavam os nervos em franja, de saber as bestas dos alunos, nervosos, à minha espera com ar de censura; tinha agora a canalha a travar-me o passo!
Ela chegou de mansinho, com um leve bater de tamancas. Arriou ao meu lado a giga de peixe que trazia à cabeça e pousou-a cansada no degrau de pedra da porta da Junta. As mãos secas de sal e o rosto tisnado denunciavam-lhe a vida sem sonho nem esperança de varina. Teria perto de setenta anos e adivinhava-se que nenhum deles fora fácil de viver. Lia-se-lhe nas rugas o trabalho e a pobreza perenes.
– Não são tão lindos, os catraios? – perguntou-me num sorriso rasgado, apontando com o queixo a multidão de fedelhos.
Mirei-a de frente. No seu olhar não havia revolta, nem dor, nem ódio, nem inveja. Nem sequer a compreensível tristeza pela velhice própria. Havia só luz e bondade, como se a alegria e o vigor simples das crianças a justificassem; como se na vida a felicidade alheia lhe tivesse sempre bastado para ser também feliz.
Passaram trinta e muitos anos. Continuo e continuarei sempre a incluí-la na lista dos meus mestres.
Ela nunca soube que o destino lhe reservou, sem redenção, a miséria e o trabalho, para que numa manhã perdida de Junho de um ano qualquer esquecido no século passado me pudesse dar uma lição.

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