A Cidade das Águas Escondidas

Naquele tempo, realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora».
João 2:1-11

Lisboa pode prescindir do Tejo. Em Lisboa, o Tejo não é o Tejo, é o mar. E a cidade não é a consequência de um rio, mas a esperança de um oceano.
Ao invés, no Porto, a cidade não pode ser concebida sem o Douro. O Porto não é o Porto. É o Porto e a razão e redenção do rio a montante.
Lisboa seria Lisboa, mesmo que o Tejo viesse de Sevilha por Évora, e não de Toledo por Santarém. Mas o Porto não seria o Porto, se o Douro nascesse no Gerês e descesse por Braga, sem passar pelo Pinhão e pela Régua.
O Porto é a pedra filosofal, a eterna e oculta boda de Caná onde a água, alquímica e circularmente, se faz vinho e o vinho se faz ouro e espírito.
Mas se no norte o Douro é os três elementos, é terra, é fogo, é pneuma, o Porto é água e da água se fez o burgo.
Terá Dona Teresa, mulher do Conde D. Henrique, mãe de Afonso, o primeiro, doado, em 1120, o monte onde viria a erguer-se a Sé e que dela desce até à Ribeira, ao Bispo D. Hugo. O termo da doação nunca foi encontrado, mas a mesma foi confirmada pelo primeiro rei de Portugal.
E a doação marcaria toda a História medieval da cidade.
Com o rio que leva à Europa e à riqueza, cresceu o comércio e com o comércio o património dos burgueses e do Bispo. A cidade expande-se, passa os limites da cerca velha que rodeia o monte primitivo e torna-se cobiçável. O poder real e a burguesia ascendente vão, desde o início, tentar retomar os domínios outorgados ao poder espiritual.
O objecto da antiga doação é o pretexto: por onde passam, afinal, os limites do território doado por Dona Teresa?
A questão coloca-se, essencialmente, quanto aos limites ocidentais, para onde cresce a urbe, rumo ao mar. Em concreto, o tema era o de saber se a estrema dos domínios do Bispo se fazia pelo rio da Vila ou pelo chamado rio Frio, a oeste um ou dois quilómetros.
Os dois rios, mais propriamente os dois ribeiros, descem perpendicularmente ao Douro e são seus afluentes na margem direita.
O rio da Vila (hoje totalmente encanado) é um canal vasto – que se forma pela junção (naquela que é hoje a Praça Almeida Garrett, em frente à estação de São Bento) de dois mananciais: o primeiro, originando-se na zona da actual Praça do Marquês de Pombal e descendo pela Quinta do Laranjal (a Avenida dos Aliados contemporânea) e pelo Campo das Hortas (actual Praça da Liberdade); o segundo, nascendo por volta da Fontinha e descendo pelo Bolhão e pela que é agora a Rua Sá da Bandeira. Depois de unidos, os dois mananciais – já como rio da Vila – corriam, no passado, a céu aberto pelo espaço hoje ocupado pelas modernas ruas de Mouzinho da Silveira e de São João, acabando a desaguar na Ribeira.
O rio Frio, por sua vez – também completamente encanado nos dias de hoje – forma-se na zona da actual Rua da Torrinha e desce na proximidade do hospital de Santo António até Miragaia.
Não refere a carta de couto concedida à cidade pelo Bispo D. Hugo, após a doação de Dona Teresa, nenhum dos dois ribeiros. Fala, sim, num «canal maior» e é esta ausência de referências explícitas que está na origem de um conflito violento e secular que se vai estender, pelo menos, desde o reinado de D. Sancho II até 13 de Fevereiro de 1405, dia em que D. João I acerta com o Bispo D. Gil Alma, em Montemor-o-Novo, os termos da devolução da cidade ao poder secular*.
Insistem os Bispos em que o «canal maior» é o rio Frio e que até ele se estende o seu senhorio. Negam-no sucessivamente os reis que fixam no rio da Vila o termo das terras e da autoridade da Igreja. Encarregado por D. Afonso IV de inquirir o fundamento dos direitos reclamados pelos da Sé, André Domingues concluirá que a Igreja abusou dos seus direitos, alterou marcos e designações tradicionais, não hesitando sequer em ameaçar com a excomunhão todo aquele que ousasse referir-se «rio da Vila» como sendo o «canal maior», pondo por essa via em causa a extensão do seu poder a ocidente.
Os episódios desta guerra são infinitos e deles é exemplo a expulsão dos franciscanos para Vila Nova de Gaia, quando tentavam erguer, contra a vontade poderosa do Bispo, o seu convento. O ponto culminante seria, no entanto, a construção da alfândega (almazém) por D. Afonso IV, na margem direita do rio da Vila, na zona que é hoje ocupada pela Casa do Infante. Invocando a necessidade de dotar o intenso comércio local de um estabelecimento moderno onde as mercadorias transitassem em segurança, sem correrem o risco de ser roubadas ou perecer, o rei desafia com esta obra o velho senhorio episcopal, retirando-lhe, além do mais, uma importante fonte de rendimentos tributários. O almazém favorece, de facto, a organização e a expansão dos negócios, mas vai contar com a forte oposição do Bispo D. Pedro Afonso que, em 1345, vai decretar a interdição da cidade, propondo a excomunhão do rei e dos seus aliados. A interdição dura 61 anos, mas não verga a cidade. Os tempos eram de mudança. A Idade Média chegava ao fim e com ela acabava um tempo para a Igreja. Em 1406, na sequência do acordo referido entre D. João I e D. Gil Alma, o velho burgo passava definitivamente ao poder do povo. Mas não havia de escapar ainda ao poder da água que continuaria a fazer sentir a sua força, mesmo em pleno século XX, e determinar a moderna expansão da cidade para a Boavista e não para Campanhã.
Isso são, contudo, já outros contos.

* Luís Carlos Amaral; Luís Miguel Duarte – Os homens que pagaram a Rua Nova: fiscalidade, sociedade e ordenamento territorial no Porto quatrocentista

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Foz do Rio da Vila

Veja também: Rio da Vila e Rio Frio na Biblioteca Digital Portuense

(inicialmente publicado em 2014-02-04)
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