Nossa Senhora da Rosa

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Dom João I e Dona Filipa de Lencastre celebrando o seu casamento místico diante da Senhora da Rosa e firmando, na casa difícil dos franciscanos do Porto, a sua aliança com o povo da cidade, contra o Bispo d’além do rio da Vila…
Os burgueses que deram alma à nova dinastia de Aviz a homenagear, na Senhora e na rosa, a casa de Lancaster, a geração ínclita e o navegador que do Porto havia de vir…
Os franciscanos joaquimitas a anunciar, na rosa que já fora de Isabel de Aragão, a transubstanciação da matéria em espírito e o advento da era da Terceira Pessoa, aguardada por João Evangelista, o apóstolo que ficou…
A História, que se fez escrava da verdade, desperdiçou estas oportunidades poéticas. Mas a memória, que é tributária do inconsciente e do desejo, bem podia ter preferido Nossa Senhora da Rosa, à Senhora da Vandoma, para padroeira do velho burgo de onde houve nome Portugal.
Pouco de sabe desta obra-prima da pintura mural portuguesa. Pintada, repintada, incoerente nas técnicas e nos materiais, a têmpera e a cola, sobre gesso e sobre cal, sem excluir a possibilidade de zonas pintadas a fresco, estaria já muito danificada quando – cumprindo o programa pós-tridentino da culpa e da vergonha do corpo e da pedra – Manuel da Costa Andrade talhou, no séc. XVIII, o retábulo barroco que, para a destacar, a ocultou.
A autoria será de António Florentim (que será também, acaso, o autor do célebre retrato de D. João I, adquirido ao Kunsthistorischen Museum Wien e hoje no Museu Nacional de Arte Antiga). Outros preferem atribuí-la a Álvaro di Pietro, pintor português, em Volterra e em Pisa. Seja como for, de Florença ou de Pisa, é inequívoca a influência italiana neste mural que, segundo a opinião dominante, configurará uma Sacra Conversazione, rara em Portugal, mas comum no fim da Idade Média italiana.
Pouco comuns entre nós – e exclusivas do programa pictórico franciscano – são também as auréolas relevadas, executadas por meio de incisões e punções, presentes igualmente no mural da Senhora da Rosa, do Convento de São Francisco do Porto.
Quem são os doadores que ajoelham diante da rosa e do menino? João e Filipa? Duarte e Leonor? Quais as figuras originais do mural? Quais as figuras acrescentadas posteriormente? Quais é que foram restauradas e/ou alteradas? Qual a verdadeira dimensão da pintura? O que se esconde atrás da talha?
Na sua essência, Nossa Senhora da Rosa continua a ser uma pintura desconhecida e envolta em nevoeiro. Talvez seja melhor assim. Condiz com a alma e o mistério da cidade.

Veja também: Nossa Senhora da Rosa na Biblioteca Digital Portuense

(inicialmente publicado em 2014-01-21)
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