A Primeira Noite do Porto

Naquela época não conhecia a insónia. Depois da escala em Lagos, o meu sono foi embalado durante toda a noite pela cadência monótona do ronco dos motores a hélice do Super-Constellation.
Rompia a manhã quando o avião, por fim, sobrevoou o Tejo. O Cristo-Rei refulgia novo e já medonho no seu pedestal sem proporção. O risco imaginário da ponte começara a sair das plantas dos gabinetes, mas não cortava ainda o azul do rio.
– Senhores passageiros, dentro de momentos aterraremos no aeroporto internacional de Lisboa. O céu está limpo, a temperatura local é de treze graus e não há vento. Por favor, conservem-se nos seus lugares com os cintos apertados até à completa imobilização do avião na pista… crew, prepare for landing.
Às sete horas de uma manhã fria de Maio de 1963, aterrei na capital do Império.
Evidentemente, agarrado ora à chupeta, ora ao biberon, a descrição da minha entrada triunfal na Europa é uma reconstituição, ficcionada a partir de memórias maternas muito mais tardias. Lisboa não me marcou nesse dia. O nosso destino era Barrô, no concelho de Águeda, distrito de Aveiro.
Águeda fica a cerca de 90 km do Porto e a 220 ou 230 de Lisboa. No Portugal centralista de Oliveira Salazar, isto significava estar muito mais perto da capital. E, com efeito, são de Lisboa as minhas primeiras grandes memórias de infância: uma porta de vidro na Portela que se abria sozinha quando nos aproximávamos; uma escada de degraus metálicos com estrias, na FIL, que subia mecanicamente e nos elevava sem precisarmos de dar às pernas; uma máquina gigante, ainda na FIL, onde os jornais entravam direitos e tesos, de um lado, e saíam dobrados e cintados do outro; as casas todas juntas e muito altas, numa rua muito comprida que era a Avenida Almirante Reis, onde entrava quem vinha do Norte e que, no meu imaginário, ficaria para sempre como a marca distintiva da cidade grande; uma laranjada num copo de papel que não se molhava nem desfazia e o Victor não acreditou, quando lhe contei; a estátua de D. José, no Terreiro do Paço, igualzinha à figura que vinha no livro de leitura da terceira classe do meu primo João…
Coimbra e Aveiro não contam. Existiram sempre.
Coimbra ficava na estrada, a caminho de Lisboa. Cheirava a bolachas e tinha uns potes gigantes com uns tubos muito altos dentro de uma casa com paredes de vidro. Era a fábrica da cerveja – explicava o meu pai. Para mim, era a primeira porta de entrada no reino do maravilhoso.
Coimbra era também a universidade onde estudavam os filhos do Fausto e os rapazes ricos de Barrô. E o Amílcar que andava em Letras e eu não percebia o que isso queria dizer, imaginando que quando fosse grande não queria ser um “T” nem um “X”. Era a estátua de D. Dinis, na rotunda ao pé portão de onde saíra limusine preta com a urna do filho da Natalinha que andava no quinto ano de medicina e morrera de amor. E Barrô inteiro fora em cortejo esperá-lo à saída do Instituto de Medicina Legal. E os carros contornaram a estátua do D. Dinis e o D. Dinis tinha uma coroa, como eu sabia que tinham os reis…
Aveiro era menos. Não era quase nada. Eram uns prédios azuis muito lindos, ao pé da “Clínica de Santa Joana”, onde fora operado o Senhor Agnelo. Eram os montes brancos de sal, a ponte de medo e de madeira para a Costa Nova e a máquina de costurar barcos, no porto, depois da ria. Era o ponto onde, no regresso da praia, à noite, o facho do farol da Barra desaparecia e eu me sentava finalmente direito no banco do carro, deixando de lhe dizer adeus.
Menos do que tudo era o Porto. Não passava de um nome que – vá-se lá saber porquê – na minha imaginação andava sempre associado a Guimarães e a Paris, formando uma trilogia de onde saía aleatoriamente a cidade que eu dava como resposta à pergunta «qual foi a primeira capital de Portugal?»
Até aos sete anos, o Porto foi a imagem única de um palacete abrasileirado na Rua do Heroísmo, onde funcionava uma qualquer delegação sanitária a que me desloquei com os meus pais para uma vacina imprescindível a um projecto frustrado de regresso a África. Recordo com precisão georreferencial esse imóvel. Creio até que ainda hoje o identifico. Mas nada mais, rigorosamente, nada mais. Talvez tenha adormecido no resto do caminho.
A primeira memória a sério da Invicta é dois ou três anos posterior e insere-se já no plano de mudança da família para Vila Nova de Gaia.
Começa com o tio Eugénio a atravessar a nova ponte da Arrábida, a perguntar-me o nome do rio e a cantar: «ó meu rio Douro, Dourinho, Dourado…» Segue pela Areosa, numa transversal à Afonso Henriques, onde esperei dentro do carro (um Austin que não era do meu pai) a resolução de um qualquer assunto de adultos.
O fascínio começou à hora de almoço em casa do tio Jaime, no sétimo direito do 793, da Rua Fernandes Tomás que subi e desci uma dúzia de vezes, a pé e de elevador, a saborear o prazer infantil da cidade a ficar pequena com a altura.
A varanda do quarto dos tios dava para as traseiras, para as gigantescas oficinas do jornal “O Primeiro de Janeiro”. E eu soube logo que “O Primeiro de Janeiro” era o melhor jornal do mundo. E era. E continua a ser, ainda que agora seja só arquivo e memória.
E a tia deu-me leite em pó “Molico” e, no fim, mandou-me limpar os bigodes.
E eu subi e desci a outra vez os sete lanços de escadas, e fechei e abri muitas vezes a grade do ascensor, e carreguei no botãozinho ao lado do número 7, e desobedeci à ordem «não andes sozinho no elevador que podes lá ficar fechado».
O regresso, à noite, envolveu uma volta pela baixa, a volta do encanto final. Foi a descoberta mágica do néon e do poder hipnótico do néon e da luz.
Eu conhecia o anúncio da “Oliva”, à saída da ponte de Águeda. Havia de conhecer, muitos anos depois, a Plaza Venezuela, de Caracas, e a Times Square, de Nova Iorque. O anúncio de Águeda era apenas bonito e a Plaza Venezuela e a Times Square não eram luz. Eram o excesso barroco da luz. Além disso, quando a conheci, a Times Square já não era néon, nostálgico e romântico. Era electrónica digital.
O Porto dessa infância perdida era diferente. Era a justa medida da luz e da cor.
A Praça D. João I refulgia. A abrir, ainda em Sá da Bandeira, na esquina com Passos Manuel, o anúncio da “Confidente – Compra, Vende, Hipoteca” que eu tantas vezes vira em azulejos pelas estradas fora, alternando com o “Adubai com Nitratos do Chile”. Era ali a “Confidente”. Era a cores e eu estava a vê-la.
Do outro lado, no telhado do Rivoli, um pneu gigante a encimar o quadrado vermelho com as letras garrafais “Mabor General”. Por causa desse anúncio, nas guerras clubísticas que mantinha com a minha irmã sobre tudo e sobre nada, eu seria da “Mabor” e ela da “Firestone”.
Mais à frente, na Praça da Liberdade, vi com os olhos pequenos muito arregalados os anúncios do “Porto Borges” e o da “TAP”, muito alto, com o logotipo clássico das asas estilizadas de um pássaro, igualzinho ao dos sacos oferecidos no Super-Constellation que ainda andavam lá por casa.
Ou talvez nada disto tenha acontecido e tudo sejam reconstruções posteriores, falsas, do meu passado.
Mas vi claramente vistas – e essas são seguras, porque ainda hoje me povoam os sonhos felizes – as chamas pequeninas e losangulares, a subirem contínuas e azuis na fachada do prédio mais alto da Praça da Batalha, do chão até ao céu, alternando com o nome familiar “Gazcidla” que eu via nas garrafas de gás de Barrô.
Ao atravessar a ponte D. Luiz, vendo os pingos caídos da lata das tintas “CIN” a choverem multicolores sobre a Ribeira de Gaia, eu soube que queria que Barrô fosse igual ao Porto. Ou que outro destino se cumprisse e o Porto fosse, afinal, a minha pátria.
Aos sete anos, eu nunca tinha ouvido falar de Teófilo Rego. E não sonhava que, quando tivessem passado cinco décadas sobre esse dia do encanto inicial, por causa de Teófilo Rego e do seu trabalho ao serviço da “Neolux”, eu escreveria estas linhas nostálgicas.

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Veja também: Teófilo Rego na Biblioteca Digital Portuense.

Domingo de manhã

Cimbalino matinal no “Canela Moscada”, o meu café de Domingo, junto ao Parque da Cidade. Pela primeira vez em muitas semanas, faz sol e a temperatura está agradável.
Na esplanada, há carrinhos de bebé, com bebés. E mães a falar de bebés. E pais a falar de futebol. Também há cães e donos de cães. A falar de cães.
O meu vizinho lê o JN.

Veja também Cafés do Porto na Biblioteca Digital Portuense.

A cidade e as gentes

«Meus senhores, anuncio-vos o fim da Idade Média!»
Derrubados os muros de Constantinopla, conquistada a cidade, Mahomet II, el-Fātiḥ, deixa escapar a oportunidade deste anúncio grandioso de fim dos tempos.
Por entre a confusão da fuga, do saque e da lenda, deixará também escapar as relíquias de São Pantaleão de Nicomédia que – juram as crónicas – um piedoso grupo de cristãos arménios carregará por um mar de mil turbações até à barra do Douro e à Igreja de São Pedro de Miragaia, de onde o santo anárgiro se fará padroeiro da Invicta, cargo de que só em 1964 será compulsivamente aposentado.
É em demanda desses cristãos carregadores de sacras ossadas do oriente, acolhidos à sombra das pedras de Miragaia, na rua que tomou o seu nome, que partimos pelo calor da tarde que começa.
A aventura não peca por ambiciosa. Quinze minutos depois, do Largo Artur Arcos, pela viela da Baleia, até aos escritórios da «Douro Azul», está concluída. Dos arménios, só o nome da rua e mais nada, que depois do século XV, arménios a mexerem-nos com as cordas da gratidão, só o Senhor 5%, com direito a estátua e perdigão na Praça de Espanha, em Lisboa.
É muito cedo. Herdeiros dignos dos antepassados da gesta dos descobrimentos, decidimos atacar a escadaria do Monte dos Judeus e a Ilha do Ferro, até às Virtudes. Contornando ruínas, pedras e grafitis de Hazul, regressamos a Miragaia. Nova escalada. Tomaz Gonzaga, São João Novo, secção da Muralha Fernandina, rio, Muro dos Bacalhoeiros, Ribeira.
Paragem para café, água e dois fôlegos. Barredo.img_6979«O Barredo é bonito, com suas ruas tortuosas, seus cachorros de granito e varandas de ferro batido, seus largos, seus nichos e “alminhas” o Barredo é bonito. Se dentro das casas houvesse pão, a escarpa do Barredo poderia ser mostrada. Assim, tem de ser escondida…» – garante com bom coração e má literatura o Padre Américo, citado na placa de bronze que justifica o nome dos três socalcos assimétricos a que a Toponímia chama largo.
O sol começa a declinar no horizonte, quando iniciamos a escarpa. Aos seis ou sete degraus, sentadas no chão, ocupando metade da passagem disponível, cinco ou seis mulheres das casitas vizinhas absorvem a vitamina D transportada nos raios luminosos e ensaiam a trilionésima versão da última cantiga de escárnio e mal-dizer cantada no bairro. A mais velha não passará dos trinta. Ao ver-nos, abre mais as pernas amplas que lhe saem dos calções curtos, exibindo, poderosas, duas coxas vastas e grossas onde se anuncia crescente a celulite. Não é uma provocação. É uma afirmação de liberdade e independência. É o protesto de que o Barredo nunca vergará os seus costumes aos pudores correctos de forasteiros metediços.
É quando estou quase a cruzar-me com esta tertúlia de vão de escada que o sinto atrás de mim, pequenito, a dar-me leves murros nas pernas. Volto-me e vejo-o. Não terá mais de três ou quatro anitos. Um leve calção de banho é tudo o que veste e parece bastar-lhe. Desafiador, ultrapassa-me e coloca-se à minha frente a barrar-me o caminho. Exibe na mão uma máquina de calcular que agita freneticamente diante dos meus olhos.
– Sabes fazer contas? Sabes fazer contas?
Sorri e dá pequenos pulos, tentando deter-me a caminhada.
– Sabes fazer contas? Sabes fazer contas?
Aprendi com os bons e velhos Jesuítas da Faculdade: responder sempre a uma pergunta com outra pergunta. Devolvo-lhe, pois:
– Eu sei. E tu? Sabes fazer contas? Quantos são três mais três?
A técnica desarma-o. Em silêncio, abre-me o caminho até aí fechado e deixa-me seguir, como se, contrariado, me tivesse visto proferir uma senha secreta que o obrigava a franquear-me a passagem.
– São seis, filho – responde pelo catraio a das coxas grossas. Diz ao senhor que são seis.
Ele não diz nada. Continua fascinado com a minha presença e segue-me o vulto. Sorrio-lhe e retomo a subida. Galguei já mais três ou quatro degraus, quando, atrás de mim, ele desce de novo à terra.
– O gajo faz contas, o gajo faz contas, o gajo faz contas… Ó mãe, o gajo faz contas.
– Não se diz gajo, diz-se senhor – corrige-o a mãe, ciente que a ouço ainda e desejosa de me mostrar que conhece os costumes linguísticos dos bécamos da cidade nova.
– Mas pode-se dizer gajo – insiste o miúdo. O gajo faz contas, o gajo faz contas, o gajo faz contas…
– Não pode – contraria a mãe. Tens de dizer senhor.
– E merda? Se eu não disser gajo, posso dizer merda?
O Porto é uma cidade coerente. A escadaria do Barredo desagua na Senhora das Verdades.

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Veja também: São Pantaleão, Padroeiro do Porto, Centro Histórico do Porto, Porto: Património Mundial da Humanidade e Igreja de São Pedro de Miragaia, na Biblioteca Digital Portuense.

(Inicialmente publicado em Julho de 2015)

Rocha Brito: um percurso portuense

A obra parece maior do que o obreiro. O homem terá, acaso, impressionado os que o conheceram. Os jornais registaram, múltipla, a sua memória; uma memória vasta e talvez digitalizada, mas não indexada. A pesquisa “Arnaldo Moreira da Rocha Brito”, no Google, devolve um resultado escasso:

Pouco mais.
Guardiões da memória, acrescentamos uma vírgula ao resgate do esquecimento:

Excerto da «Acta da Reunião ordinária da Excelentíssima Câmara Municipal do Porto, realizada em dezoito de Fevereiro do ano de mil novecentos e sessenta e quatro.»

«O Vereador Senhor Abrantes Jorge, pedindo a palavra, diz:
Ex.mo Senhor Presidente
Exmos Senhores Vereadores
É esta a segunda sessão da Excelentíssima Câmara, a que tenho a honra de assistir; é esta, também, a segunda vez que eu uso da palavra, o que muito me apraz, porque o faço em obediência às imutáveis determinantes da justiça.
Completou no passado dia 2 de Fevereiro oitenta e quatro anos de idade e mais de setenta e três anos de vida de trabalho incansável uma popularíssima figura do Porto, que pode ser apontada como um dos mais nobres exemplos de amor a este velho e invicto burgo.
É Arnaldo Moreira Rocha Brito ou simplesmente Rocha Brito que toda a cidade estima e admira.
Nascido em mil oitocentos e oitenta, nesta cidade, no seio de uma numerosa família burguesa, de origem duriense, não se expatriou para o Brasil, na adolescência, como o fizeram os restantes seus irmãos.
Aqui no Porto, iniciou ainda muito criança a sua dura vida de trabalho, como então a iniciavam, os que nada tinham a não ser a indomável vontade de triunfar: como marçano.
De marçano subiu a caixeiro e de caixeiro a comerciante de uma pequena loja de panos brancos.
Depois abalançou-se e fundou a que ainda hoje é uma das mais elegantes alfaiatarias desta cidade: «Londres no Porto» que durante muito tempo ostentou de direito e com orgulho a divisa de «Fornecedor da Casa Real».
Seguidamente passou a ser, como toda a gente sabe, o maior negociante de automóveis do Norte de Portugal.
Mas onde a actividade de Rocha Brito mais se notabilizou e com a qual prestou os mais assinalados serviços à cidade do Porto, foi como empresário teatral.
Pelo Teatro Águia D’Ouro, celebrizado por Júlio Dinis, no seu belo romance da vida portuense «Uma Família Inglesa», Rocha Brito fez passar, em espectáculos maravilhosos, as mais afamadas companhias de ópera, opereta e zarzuela.
Depois, no Teatro Sá da Bandeira, de que é arrendatário desde mil novecentos e nove, Rocha Brito ofereceu à cidade do Porto tudo o que de melhor tem havido na cena portuguesa e na estrangeira, através das idades.
Aqui trouxe o grande Zaconi , a prodigiosa Mimi Aguglia, as irmãs Gramáticas, a Commédie Française e todos os anos tinha temporada certa a companhia de Brasão e dos Irmãos Rosas.
Companhias famosas estrangeiras como as do Teatro Bataclan e Caramba aqui vieram pela mão de Rocha Brito.
Construído o Coliseu do Porto, logo Rocha Brito foi seu empresário, e dizer das noites gloriosas de ópera com as maiores figuras da cena lírica mundial, dos concertos sinfónicos com as mais afamadas orquestras do mundo, entre as quais é justo destacar a Orquestra Filarmónica de Berlim e de outros espectáculos de grande nível artístico e cultural, é fazer história, que por ser recente, está na memória de todos, ainda dos muito novos.
Os espectáculos líricos que em todas as nações civilizadas do mundo, custam somas avultadas aos respectivos governos, ofereceu-os Rocha Brito, durante oito anos consecutivos, à cidade do Porto, sem jamais haver recebido o mais pequeno subsídio.
Para tudo resumir, bastará dizer que, havendo deixado de ser empresário do Coliseu do Porto, acabaram, para não mais terem voltado, as maravilhosas noites de espectáculos líricos na cidade do Porto.
Já com oitenta anos, Rocha Brito, num prodígio de vontade indomável e como prova de amor a esta cidade que o viu nascer, gastou milhares de contos, na remodelação total do Sá da Bandeira, fazendo do velho casarão, que era, o belo teatro que hoje todos admiram.
Para obras de caridade teve Rocha Brito abertas sempre as portas dos seus teatros, sem receber sequer as despesas da «seral».
Que o digam os grupos beneficentes e a comissão das senhoras desta cidade que se têm dedicado a socorrer os necessitados.
Tudo isto fez com que o Governo da Nação concedesse, muito justamente, a Rocha Brito a comenda da benemerência.
Ainda recentemente Rocha Brito abriu as suas portas do Teatro Sá da Bandeira aos concertos para a juventude, em boa hora levados a efeito pela magnífica Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto, sob a direcção do insigne maestro Silva Pereira.
Este mecenato de Rocha Brito recebeu justa exaltação no próprio seio da Assembleia Nacional.
Este exemplo de trabalho, de desinteresse, de dedicação á cidade do Porto, parece ser digno de reconhecimento por parte do burgo que ele tanto tem amado e servido.
Por isso julgo que o Porto deve manifestar de forma inequívoca esse reconhecimento por intermédio da sua legítima representante que é esta Câmara Municipal.
Assim, proponho que ao cidadão portuense Arnaldo Moreira da Rocha Brito, seja concedido o galardão que a Comissão de Recompensas julgar por bem conferir-lhe.
O Senhor Vice-Presidente, usando de novo da palavra, diz:
Senhor Vereador
Ouvi a proposta apresentada por Vossa Excelência e tal como Vossa Excelência refere, ela será enviada à Comissão de Recompensas para apreciação.»

Doente, Nuno Maria de Figueiredo Cabral Pinheiro Torres, Presidente da Câmara Municipal do Porto, não assistiu à sessão. À secura com que o Senhor Vice-Presidente recebeu a proposta não terá, porventura, sido alheio o público desamor que Rocha Brito nutria pelo Presidente do Conselho, Doutor António de Oliveira Salazar.
O site do Município regista a entrega, em 27 de Fevereiro de 1964, da Medalha de Mérito, grau ouro, a Arnaldo Moreira da Rocha Brito, empresário, antigo Presidente da Associação Comercial do Porto.

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O arquitecto da obra por haver

Un libro es una cosa entre las cosas, un volumen perdido entre los volúmenes que pueblan el indiferente universo, hasta que da com su lector, com el hombre destinado a sus símbolos. Ocurre entonces la emoción singular llamada beleza, ese misterio hermoso que no descifran ni la psicología ni la retórica.
Jorge Luis Borges

O que é uma obra de arte?
Existe a obra de arte, em si mesma? Ou – como sugere Borges – a obra de arte não é a obra de arte, mas própria relação da obra, em si, com o destinatário que a consome ou desfruta, em termos de, não havendo destinatário, não haver também obra de arte?
A questão tem várias dimensões. Uma delas, assinalada ainda por Borges, tem a ver com o que à obra original é acrescentado pelos destinatários.
Não vemos hoje os painéis de Nuno Gonçalves como os viam os contemporâneos de Nuno Gonçalves, nem lemos o Quixote como o liam os seus primeiros leitores.
Hoje, dizemos que os painéis são de Nuno Gonçalves ou de São Vicente (ou das Janelas Verdes) e o nosso olhar é condicionado por esses dizeres que não eram os dizeres do pintor nem os dos que viram o quadro original. Hoje, vemos Salazar nos painéis (e também Teixeira dos Santos e António Barreto), e a dinastia de Avis, e os descobrimentos, e a História de Portugal… E a questão dos painéis… E os painéis já não podem ser vistos sem estes novos elementos que incindivelmente fazem agora parte deles e os acrescentam. Tanto, que os painéis não são mais os painéis que eram antes (eram apenas uma tábuas velhas e esquecidas em São Vicente de Fora) e não poderão jamais voltar a ser o que eram antes.
Do mesmo modo, o número de vezes que as pessoas que nunca leram o Quixote usaram o adjectivo «quixotesco» ou falaram em «combater moinhos de vento» determina que o Quixote não seja (não possa ser) mais o livro sem estrutura nem rumo que Cervantes escreveu, mas o clássico em que se tornou e que como clássico não pode deixar de ser lido.
Outra dimensão é a que pergunta pela obra de arte sem destinatário.
Seria O Processo, de Kafka, a obra de arte genial que é, se Max Brod, cumprindo os desígnios do autor, tivesse queimado o respectivo manuscrito?
Destruído o grosso dos seus quadros, será Santa-Rita Pintor um pintor tão grande como a obra desaparecida?
É aqui que nos cruzamos com o drama do arquitecto: qual o valor artístico de um projecto para sempre em desenho e nunca concretizado?
Talvez ninguém tenha vivido tão intensamente esse drama como José Porto, o arquitecto da obra por haver.
Natural de Vilar de Mouros, estudante em Lisboa e em Genève, é no Porto homónimo que, em 1933, fixa residência e é aqui que não realiza o grosso da sua obra.
Vencedor do concurso público para a construção do estádio municipal da Invicta, o projecto nunca chega a ser construído.
Igual destino tem a remodelação do Teatro Gil Vicente e a piscina municipal, desenhadas por José Porto para o demolido Palácio de Cristal e seus jardins.
A remodelação do Teatro Águia d’Ouro não vê a luz do dia.
O Coliseu do Porto – para o qual sonhou uma das primeiras propostas – acaba por transformar-se depois no sonho de outros: José de Brito, Charles Siclis, Mário Abreu… Cassiano Branco obscurecerá para sempre o nome de José Porto na associação da memória à casa de espectáculos da Rua Passos Manuel.
A remodelação do Mercado Geral do Porto, no Jardim da Cordoaria, dá lugar ao actual Palácio da Justiça que não grava na eternidade da pedra o nome de José Porto.
O cinema previsto para o cimo da Rua Sá da Bandeira, aborta e, em seu lugar, nasce uma menos ambiciosa autogaragem. Estacionamento. Muda-se o óleo e trocam-se pneus. Assistência a baterias.
Um dos mais arrojados projectos de José Porto, o Hotel Dom João I, na nascente Praça do mesmo nome, não revela viabilidade económica e não chega ser inaugurado.
A cidade da Beira, em Moçambique, redimi-lo-á.
A par de meia dúzia de edifícios esquecidos, remodelados e demolidos, o velho burgo de onde houve nome Portugal guardará de José Porto uma casa na Rua de Nevala , n.º 43 (1934); outra na Avenida de Montevideu, n.º 644 (a casa José Prata, de 1937) e o Edifício Emporium, lugar chique de bifes, pastéis e tertúlias.
Nada de especialmente, monumental, todavia.
A imortalidade só virá bater-lhe à porta na Rua da Vilarinha, números 431-475, pela mão de Manoel de Oliveira e da página 4456, do Diário da República, 2.ª série, numero 35, de 19 de Fevereiro de 2015. Talvez aí, nesse jardim novo da Vilarinha, num qualquer dia irremediavelmente perdido do início dos anos 40 do século XX, Oliveira tenha sonhado e pedido a José Porto o desenho da «Loja das Tentações», de Aniki Bóbó. Talvez aí este tenha, pela primeira vez, concebido mentalmente aquele cenário de cartão, perguntando-se angustiado: o que é mais real? O cenário irreal de um filme de ficção ou o desenho real de uma obra que nunca será construída?

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Veja também: José Porto na Biblioteca Digital Portuense

(inicialmente publicado em 2015-07-05)

Santa Cruz 87 (n.º Geral 619)

Ignorando (fingindo ignorar) que a omnisciência é prerrogativa divina e que o conhecimento universal é soberba que perde o filho do homem, no livro II do seu De doctrina Christiana*, recomendou Santo Agostinho o estudo abrangente e enciclopédico de todas a matérias aptas à iluminação das Sagradas Escrituras, da História à Geografia, da Medicina à Astronomia, passando pela Zoologia e pela Aritmética.
Flavius Cassiodorus encetou, no século VI, esse programa de saber absoluto e pecado que tem na Wikipédia uma das suas últimas manifestações. Nele sacrificaram também Isidoro de Sevilha, Honorius Augustodunensis e Thomas Cantipratensis, porventura, os nomes maiores do enciclopedismo medieval.T1-8
Cansado do latim, empreendeu Gossouin de Metz, em 1245, a laboriosa redacção de uma enciclopédia em língua vernácula. Ao texto original, em verso, seguiu-se, logo depois, a mesma composição em prosa. Nas suas duas versões, L’image du monde tornar-se-ia a primeira grande colectânea do conhecimento universal ao alcance da plebe. Em Inglaterra, muitos anos depois, seria o primeiro livro ilustrado a ser impresso.
Amigo de Platão, mas mais amigo da verdade, Aristóteles ensinara que um corpo pesado cai a maior velocidade do que um corpo leve. Metz não tinha uma torre inclinada como Pisa e Galileu ainda não estudara a queda dos graves nem experimentara a indiferença dos sábios pisanos perante os factos observados. Gossouin repete Aristóteles, os sábios pisanos e o senso comum que engana. Mais ousado ainda, repete Ctesias de Cnidus (recordado por Plínio, o velho), e situa nas proximidades do Paraíso a terra dos monópodes (ou monocoli, nome que Gossouin ignora, chamando-lhes, apenas, «ciclopes»), seres de um só e gigantesco pé que, no Verão, erguiam, deitados, sobre a cabeça, para se proteger do sol e do calor. No virar do milénio, Umberto Eco encontrá-los-á, de novo, em Baudolino.sciapode Aos monges crúzios de Coimbra chegou alguma vez o manuscrito de L’image du monde, de Gossouin de Metz. Em 1834, Alexandre Herculano juntou-o aos outros 169 manuscritos da «Livraria de Mão de Santa Cruz de Coimbra» e levou-o para o Porto. Constitui hoje um dos tesouros da Biblioteca Pública Municipal da Invicta. 619 é o seu número geral no catálogo.
«El universo (que otros llaman la Biblioteca) se compone de un número indefinido, y tal vez infinito, de galerías hexagonales» – escreveu Jorge Luís Borges. Até hoje, o universo não contava com esta nota caótica e dispersa.
Ou talvez contasse muitas vezes… foi também Borges quem nos ensinou que a Biblioteca – o outro nome da enciclopédia  de Agostinho –  não é senão um jogo infinito de espelhos.

Existem, disponíveis online, traducões inglesas: On christian doctrine ou On christian doctrine, in four books, por exemplo

Veja também: BPMP – Biblioteca Pública Municipal do Porto na Biblioteca Digital Portuense

(inicialmente publicado em 2014-02-27)

A Arte em Hazul

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Há quarenta e cinco anos, no Porto, quando frequentava o ensino básico, o sonho de qualquer pai modesto, sem possibilidades de mandar o filho estudar, era ainda que este aprendesse uma «arte» e se tornasse marceneiro, picheleiro, canteiro… Em suma, que não fosse um mero trabalhador indiferenciado, mas dominasse um certo saber que, não sendo teórico, se consubstanciava num saber fazer.031-2
O sonho mergulhava as suas raízes, na Idade Média.
Recorda Umberto Eco* que «para o medieval, a arte era simplesmente uma técnica, a capacidade de fazer bem os objectos segundo as regras: a construção de barcos era uma arte como a pintura e a escultura, e um produto de arte só podia ser considerado belo se correspondesse à função para que se destinava (…). Existia uma distinção entre artes liberais – entre as quais, além da lógica e da retórica, figurava a poesia – e artes servis, em que se utilizava as mãos, e onde se incluíam a pintura e a escultura. Por isso, não conhecemos o nome de muitos escultores do período românico, de muitos mestres que conceberam e construíram as grandes catedrais e de muitos miniaturistas; e só na Idade Média madura os nomes de alguns artistas se tornam míticos e exemplares, como no caso de Giotto.»
O grafitti começa também hoje a entrar na sua Idade Média madura. Se tradicionalmente o grafiteiro era um ser ignoto e anónimo (fora do gang em que se inseria), portador de uma mensagem de revolta que em si mesma se esgotava (bela apenas na medida em que correspondia «à função [de negação dos valores burgueses] para que se destinava»), e cujo nome para nada interessava (a não ser, porventura, ao próprio, como meio de subir na hierarquia grupal, e ao polícia que o devia prender), o seu estatuto começa agora a ser o do verdadeiro artista que, dominando com mão segura um saber fazer, exige o reconhecimento público e, por isso, assina as sua obras (de modo claro e reconhecível, mesmo fora do grupo a que pertence) e a quem não escapa sequer o sentido do marketing e a necessidade de promoção sistemática e exaustiva do respectivo portefólio.094
A avaliação de um artista ainda em desenvolvimento é prematura. À primeira vista, contudo, parece poder afirmar-se que o Porto – terminada a fase da parede medieva e iniciado o momento moderno – encontrou em Hazul o seu Giotto do grafitti.
Resta saber se a mudança do paradigma não implicará também a mudança do registo. E se, quando falamos do grafitti de Hazul, é ainda de grafitti que falamos…
Para já, do grafitti, a arte de Hazul conserva, pelo menos, a natureza efémera. É por isso que é importante registá-la. Para memória futura…

* – Umberto Eco (dir.) – Idade Média: vol.I: bárbaros, cristãos e muçulmanos. Alfragide, Dom Quixote, 2011, pp. 37-38.

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Veja também: Hazul Luzah na Biblioteca Digital Portuense

(inicialmente publicado em 2014-02-11)